Como construir uma mídia esportiva antirracista, antimachista e anti-homofóbica?

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Como muitos dos meus colegas de Palaestra, uma das grandes preocupações do meu trabalho é a mídia esportiva. Do que ela fala e como ela fala. Quem fala através dela e com quais consequências. Entendo a mídia esportiva (e uso essa expressão para incluir além do jornalismo esportivo, também a publicidade e a comunicação institucional das organizações esportivas) ligada de forma circular à cultura. Se a mídia não é o todo, sua visibilidade lhe garante uma certa centralidade para a conformação da cultura contemporânea.

Existem muitas razões para repensarmos a mídia esportiva. As pesquisas indicam que o jornalismo esportivo, por exemplo, é pouco diverso em termos de modalidades. Dados do International Sports Press Survey (ISPS) de 2011indicam que, no Brasil, cerca de 75% das notícias são sobre futebol. Em Portugal, esse percentual chega a 80%. Grande parte da cobertura é focada nos atletas (mais de 50%), sendo que, desses, 85% são homens. O jornalismo esportivo também ouve poucas fontes (alarmantes 26% das notícias não ouvem nenhuma e 41%, uma) e as que ouve são predominantemente internas ao campo esportivo (atletas e treinadores). Elas também são majoritariamente masculinas. Na imprensa (mas não há qualquer razão para pensar que é diferente em outras mídias), 92% das matérias são assinadas por homens. Por fim, quase 80% das notícias se resumem ao pré e pós jogo. 

Annual Meeting 2019

Esse quadro só se complica quando olhamos internamente para as redações que, como bem caracterizou o narrador Júlio Oliveira do SporTV/Globo, são “mares brancos”O repórter Humberto Martins, do portal Superesportes, um dos principais veículos aqui do estado de Minas Gerais, indicou em reportagem sobre racismo no esporte que ele era o único negro na editoria. A redação do Superesportes à época tinha 19 profissionais. As percentagens de mulheres associadas às associações de repórteres e cronistas esportivos no Brasil giram em torno de 10%. Para complicar, Breiller Pires, jornalista dos canais ESPN, em entrevista concedida recentemente para a Revista Marta, completa: muitos dos que habitam as redações esportivas brasileiras são de origem privilegiada, fazendo delas lugares pouco diversos. Não à toa, historicamente, o jornalismo que delas saiu também é tão pouco diverso. 

Diante desse cenário, a pesquisa desenvolvida no Coletivo Marta, grupo de pesquisa que coordeno na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), está focada, entre outras coisas, em: olhar para a mídia alternativa, em busca de outros caminhos que possamos trilhar; e propor novas formas de fazer jornalismo esportivo através da Revista Marta

Mídia Alternativa

Eu tenho estudado projetos de mídia produzidos por torcedores há muitos anos. Em 2015, finalizei meu doutorado com trabalho que analisava os projetos de mídia mais populares liderados por torcedores do clube brasileiro Atlético-MG. Iniciativas como Galocast (projeto de 2008, descontinuado), Cam1sa Do2eWeb Rádio Galo e os blogs de torcedores hospedados nas plataformas do Globoesporte e ESPN (descontinuados também) foram alguns dos analisados. Àquela época, já tínhamos a participação de mulheres nesses projetos. Uma das minhas entrevistadas foi, inclusive, Elen Campos, torcedora que escreve sobre o time há anos e que já narrava as dificuldades de falar de futebol a partir desse lugar.

Nos últimos anos, proliferaram os projetos liderados por torcedoras. E também a centralidade de figuras femininas nas culturas torcedoras de cada clube em redes sociais como o Twitter e Instagram. Em Minas Gerais, temos canais no YouTube como o Linha de Tr3s, comandado pelas atleticanas Carol Leandro, Aline Medeiros e Nina Camba e projetos sonoros como o Podcast das Marias, produzido por torcedoras do Cruzeiro-MG. Temos ainda projetos como o Galo Delas, produzido por torcedoras do Atlético-MG e dedicado exclusivamente à modalidade feminina do clube. 

Algumas coisas me chamam atenção a partir da análise inicial que publicamos no congresso da Intercom do ano passado focada no Podcast das Marias. Muitos desses projetos trabalham a partir do que chamamos de enquadramento episódico, que, segundo Iyengar (1994), é aquele modo de enquadrar uma notícia a partir de um evento concreto e que, em geral, não coloca as questões em contexto (o que é próprio do enquadramento temático). O jornalismo esportivo, como aponta Rowe (2007), é dominado pelo enquadramento episódico, com a cobertura factual dos jogos e resultados sendo seu maior representante. Logo, esses projetos são pouco inovadores no que tange ao enquadramento. Ainda que possamos argumentar que é bastante inovador fazer a cobertura episódica de modalidades femininas.

O projeto que analisamos em algum detalhe, o Podcast das Marias, começa integralmente dedicado à modalidade masculina, mas, gradualmente, a partir de 2019, insere a modalidade feminina na pauta. Em nossa análise, buscamos entender como esses projetos questionam as diferentes dimensões de poder/opressão propostas pela socióloga estadunidense Patricia Hill Collins. Collins (2000) propõe um conjunto de dimensões da opressão que atuam juntas e constituem de forma complexa as relações de poder permeando as questões de gênero. Essas dimensões formam o que ela chama de matriz de dominação, composta por diferentes domínios de poder: estrutural, disciplinar, hegemônico e interpessoal. 

Podcast das Marias

No caso do Podcast das Marias, dois domínios chamam a atenção em suas narrativas: o estrutural e o hegemônico. No caso do estrutural, há um questionamento sobre como as condições estruturais de organização do futebol feminino dificultam que a modalidade prospere. A inadequação de horários, dos locais das partidas e das formas de transmissão são vistos como políticas, que calcadas em concepções binaristas de gênero e na naturalização das desigualdades de gênero, agem como barreiras e reproduzem a subordinação das mulheres ao longo do tempo.

Sobre o domínio hegemônico, ele atua principalmente através das imagens de controle que, como afirma Pilar (2020), estão ligadas às representações sociais e ao processo de estereotipagem, sendo importantes para a forma como a sociedade irá ver as mulheres e a normatização de como elas devem se portar. As torcedoras/produtoras do Podcast das Marias desafiam algumas imagens de controle que atuam no âmbito esportivo, sobretudo aquelas ligadas às torcedoras. Identificamos na literatura da área, cinco dessas imagens: embelezadora de estádio/maria-chuteira; torcedora “modinha”; figura maternal; apaziguadora; e a torcedora masculinizada. Chama atenção a reflexão proposta no episódio 52 do Podcast das Marias em que recente campanha de lançamento de camisa do clube brasileiro de futebol Goiás é questionada por passar a imagem de que as mulheres estão presentes no meio do futebol apenas para satisfazerem as vontades dos homens, para serem a “gata da rodada” ou embelezarem o estádio e o esporte. Segundo fala de uma das torcedoras no episódio, “parece vinheta daquele programa sextime do Multishow [canal de TV por assinatura brasileiro]”. 

Novas formas de fazer jornalismo esportivo

As pesquisas sobre o jornalismo esportivo hegemônico e a nossa pesquisa sobre a mídia esportiva alternativa nos conduziram a criar a Revista Marta, projeto que surgiu como trabalho de final de curso de duas alunas de Jornalismo da UFMG, e hoje se transformou em projeto de ensino e extensão do Departamento de Comunicação Social. Acabamos de publicar nossa segunda edição, sobre “Esporte e Democracia”, com o intuito explícito de construir um outro caminho para o jornalismo esportivo. Apostamos no enquadramento temático, em ouvir muitas fontes (!), fontes diversas, e falar daquilo que não se fala na mídia esportiva tradicional. 

Em nossa primeira edição, a reportagem principal foi construída a partir de um survey com mais de 400 torcedoras mulheres que nos contaram sobre os casos de preconceito e assédio que já sofreram no ambiente esportivo. A reportagem principal da segunda edição reflete, junto com pesquisadores, atletas, jornalistas e ativistas, sobre o engajamento de personagens do esporte na luta antirracista e antifascista em 2020.

Para finalizar, repito aqui o que disse no editorial da recente edição da Revista Marta: é possível contribuir para a mudança social a partir do esporte. Para isso, precisamos reconhecer que a mídia esportiva hegemônica é machista, homofóbica e racista. Sim, ela é. Como afirma o professor e pesquisador da UFMG, Pablo Moreno, também na reportagem principal desta edição da Revista Marta, é preciso, antes de tudo, reconhecermos que a mídia brasileira é racista para pensarmos numa mídia antirracista. Estendo a mesma observação para a mídia esportiva e para as questões de gênero. É preciso reconhecermos que a mídia esportiva brasileira é racista, machista e homofóbica para vislumbrarmos algum caminho para que ela se transforme numa mídia comprometida com a luta antirracista, antimachista e anti-homofóbica. Os projetos de mídia liderados por torcedoras e a Revista Marta são algumas das tentativas nesse sentido.

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